22/06/2008 22:42

Feliz Ano Novo Aimara

O dia 21 de junho marca o Ano Novo Aimara. É o Willkakuti, o Retorno do Sol. Nas últimas décadas, sítios arqueológicos que serviam como centros cerimoniais passaram a receber milhares de indígenas e estrangeiros para celebrar essa data. Próximo ao lago Titicaca, Tiwanaku é um desses pontos magnéticos que atrai devotos de todas as partes, várias vezes por ano – principalmente durante os dois solstícios e os dois equinócios. Por isso, na minha jornada na Bolívia, não hesitei em incluir Tiwanaku no itinerário.

Segundo a tradição andina, entramos no ano 5516. Perguntei a Lucas Choque Apaza, presidente do Conselho de Amautas (Sábios) de Tiwanaku, como eles chegaram a este número. “São 516 anos desde a chegada dos espanhóis no continente (em 1492). Nossa cultura existia, naquele momento, há cinco mil anos. Isso dá um total de 5516.”

Às 5 h da manhã eu já estava dentro do recinto. Fazia um frio danado. Afinal, esta era a noite mais longa do ano aqui no hemisfério sul. À medida que o dia clareava, o frio aumentava e chegou a fazer 5 graus negativos! Eu estava com muita roupa, mas, mesmo assim, os dedos dos pés congelaram!

Um pouco antes das 7 h, chegou o helicóptero do Presidente da República Evo Morales. Como ele já está em campanha para reeleição, não podia deixar de participar da festa. Se em alguns dos departamentos do país, Evo é pessoa non-grata, aqui no altiplano de La Paz ele é ainda muito querido. O exército estava em peso para garantir sua segurança. Mas apesar das tentativas de organizar os jornalistas – as TVs locais e alguns fotógrafos das agencias internacionais – na hora que Evo chegou, virou bagunça.

Na hora do nascer do sol, os 10.000 participantes (35.000 segundo os jornais que apoiam o governo) elevaram as mãos para o alto para receber os primeiros raios, enquanto o amauta Lucas pedia paz para o país e para o mundo. O sábio recebeu Evo no altar de adobe construído para a cerimônia. O presidente colocou no fogo um pacote com oferendas, como folhas de coca, lã de lhama colorida e doces.


Um amauta (com uma lua cheia sobre sua cabeça) abre os braços para receber os primeiros raios solares. Termina, assim, a noite mais longa do ano e começa um novo ciclo para os Aimaras.



Evo Morales, presidente da Bolívia (à direita), coloca uma oferenda no fogo do altar montado no centro de Tiwanaku.

O novo ciclo parece ser positivo para a Bolívia. “A Pacha Mama (Mãe Terra) recebeu o Pai Sol com neblina, o que é um bom sinal. E o Sol saiu suave, como se estivesse acariciando os humanos”, disse o amauta Lucas. “Isso significa que devemos ser amáveis uns com os outros”, concluiu. Em um momento de grande instabilidade política, quando o país está fortemente polarizado e rumores de conflitos abundam, esperemos que os votos do sábio andino se tornem realidade.


Depois do nascer do sol, todos que tinham alguma oferenda vieram ao altar para depositá-la no fogo sagrado.

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07/06/2008 00:04
Do Himalaia aos Andes, passando pela Amazônia

Porto Maldonado, Peru – Não consegui colocar um outro post sobre o Ladakh, o Pequeno Tibete. Mal troquei os Himalaias pelo Brasil, tive de arrumar minha mala novamente e partir rumo à cordilheira dos Andes. Foi o vídeo que me chamou para essa viagem: estou aqui nessas terras para produzir e apresentar dois documentários para a televisão.

A primeira escala foi Porto Maldonado, uma cidade na Amazônia peruana, próxima ao Brasil e à Bolívia. Já passei dezenas de vezes por Maldonado, porque a região é uma das mais ricas em biodiversidade do mundo. Mas minha visita agora é para conhecer um pouco melhor o que está acontecendo com a Rodovia Interoceânica.

A estrada que ligava Iñapari, na fronteira com Acre, com Porto Maldonado existe há vários anos. Mas era transitável apenas durante alguns meses. Na época das chuvas virava um barro só. Até que os governos brasileiro e peruano resolveram que a estrada existente merecia ser asfaltada. A construtora Odebrecht amarrou um consórcio, ganhou a concorrência e, desde 2006, trabalha na região.

Para qualquer conservacionista, abrir uma rodovia ou asfaltá-la é sinônimo de impacto ambiental na certa. Os efeitos negativos diretos – como mexer com riachos e zonas alagadas – são até fáceis de ser manejados ou controlados. O problema aqui são os impactos indiretos. Com a pavimentação da Interoceânica, levas e levas de migrantes da zona andina descerão para a Amazônia. Isso significa um crescimento da população, procura por mais terras e aumento do garimpo e do desmatamento. Numa região onde planejamento e investimentos em uma economia sustentável não são prioridades, uma nova via de comunicação como a Interoceânica pode representar um grande desastre ambiental.


Uma escavadeira amplia a antiga estrada, a 20 km de Porto Maldonado. O impacto ambiental não se mede em árvores cortadas, mas em número de imigrantes que chegarão à região


Um porco-do-mato ou queixada atravessa um trecho ampliado da Interoceânica. Por quanto tempo a vida selvagem estará a salvo?


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25/05/2008 12:22

Para essa segunda viagem à Asia, seu blog Viajologia está bem diferente do que a primeira em 2007”, comentou uma amiga há poucos dias por email. “A jornada na Mongólia, China e Tibete saiu bem redondinha. Essa sua ao Butão, Nepal e Mianmar foi cheia de atropelos, não foi?” Concordei plenamente.

Na verdade, em várias situações fui literalmente forçado a mudar a sequência do itinerário e dos posts. Mal tinha começado a escrever sobre o Butão e cobri as primeiras eleições do reino: troquei as caminhadas pelas montanhas pelos resultados ao vivo. Cheguei ao Nepal e dei de cara com os protestos tibetanos. O blog passou a ser, temporariamente, internacional. As duas notícias em inglês geraram dezenas de links em sites e blogs pelo mundo afora. Quando chegou a hora de falar sobre Mianmar, confirmei o que esperava: que de lá mesmo – onde Hotmail, Yahoo e Gmail são proibidos – seria impossível postar alguma coisa. Para concluir, quando comecei a publicar as histórias sobre o país, o ciclone Nargis trouxe morte e destruição e silenciou minhas narrativas.

Com tudo isso, já regressei ao Brasil. Mas sinto que devo fazer um último esforço para terminar a viagem virtualmente. O último destino, Ladakh, vale a pena.


Ladakh, o Pequeno Tibete

Estou em Delhi. A temperatura está nos 40 graus. É o calor brutal do verão que começa. Vai continuar por dois ou três meses até se transformar nas chuvas torrenciais das monções. Adoro clima tropical, mas numa cidade poeirenta, engarrafada e caótica, sinto que não vou suportar. Meus olhos, congestionados pelo pó e pela poluição, reclamam e ameaçam uma conjuntivite (a última que peguei foi em 1994!) Dentro do apartamento, o ventilador de teto só faz movimentar ainda mais o ar quente. Mas não há como sair de casa entre as 10 e 16 horas: o sol bate forte. Tenho uma semana pela frente antes de voltar ao Brasil e preciso escapar de Delhi de qualquer maneira!

Minha primeira opção é visitar uma amiga brasileira Karen Moresi, uma budista tibetana que mora em Sarnath, na Índia. Ela trabalha com Tsering Gellek, a filha de um grande mestre tibetano da linha Nyingma, Tarthang Tulku. Mas ela me avisa que a temperatura em Sarnath e na vizinha Varanasi passa dos 50 graus! O bom senso me diz que devo ir para as montanhas. Penso em Rishikesh, na beira do sagrado rio Ganges e ponto de encontro de vários gurus hinduístas. Ameaço ir a Dharamsala, “capital” do governo tibetano em exílio. Sikkim e Darjeeling também entram na equação.

Naquela tarde pesada e sofrida, meu dedo recai finalmente sobre um recanto perdido no mundo, o antigo reino do Ladakh. Meu guia sobre a Índia me avisa que chegar de avião até lá pode ser complicado, por causa do clima, da altitude e dos poucos vôos. Mas não há guia turístico que acompanhe a evolução da Índia. Uma meia dúzia de novas empresas aéreas brotaram nos últimos anos e todo o esquema de vôos domésticos mudou completamente. Na internet, checo horários e disponibilidade. Não há nenhum problema. Tomo a decisão, vou para Leh, capital do Ladakh.

No dia seguinte, às 7:30 horas da manhã, estou sobre a cordilheira do Himalaia. Aterrizo entre nevados, quase que no meio do deserto. O comandante avisa que a temperatura é de 2 graus negativos! Mais um contraste indiano! No chão, o ar é rarefeito. Pudera, estou a 3.500 metros de altitude.

No centro da pequena cidade, olho para cima e vejo o antigo palácio real, construído no século 17, e o monastério Tsemo. As duas construções dominam Leh. Resolvo, devagar, subir até lá.


Do teto de uma casa, tenho a vista do antigo palácio real de Leh e do mosteiro Tsemo, à direita, no alto.


As construções de adobe dão um ar de vilarejo à Leh, capital do Ladakh. Ao fundo, a cordilheira do Himalaia.

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19/05/2008 23:22

A Grande Viajante do Norte

Você já deve ter ouvido falar de uma fotógrafa carioca que trocou as praias tropicais pelo gelo do Pólo Norte. O nome dela – Luciana Whitaker – está saindo nesses dias na imprensa pois ela acaba de lançar no Rio e em São Paulo seu livro “11 anos no Alasca” (Ediouro, R$ 49).

O livro é um diário de bordo que acontece nessa última década. Luciana conta o cotidiano de uma vida bem diferente da nossa - e da grande maioria da população do planeta. Por exemplo, durante dois meses de inverno, o sol nem aparece em Barrow, a cidade mais ao norte de nosso continente, lar escolhido por Luciana. Para compensar, durante quase três meses o sol não se põe. Quase toca o horizonte de madrugada de maio a julho, mas volta a subir logo depois. Essas luzes mágicas foram o pano de fundo para que Luciana pudesse registrar os momentos íntimos do povo Iñupiaq.


Saída de um grupo de caçadores de baleia, uma atividade tradicional dos Iñupiat

Como dá para imaginar, tudo começou com uma bela história de paixão. Luciana conheceu Kelly em 1996 e no mês seguinte deixou o trabalho na sucursal carioca da Folha de S. Paulo e foi para a Latitude 71. Como uma das ocupações de Kelly era caçar baleia, Luciana teve a oportunidade de acompanhar e documentar o processo. Ela saiu do Brasil vegetariana, mas em terra de esquimó, onde não dá para plantar alface, ela teve de se adaptar à realidade local.

Um dos temas mais interessantes que ela acompanhou nessa década é o aquecimento global nessa parte sensível do mundo. No ano passado ela publicou uma linda reportagem na EPOCA e contou que, devido às mudanças climáticas, a camada congelada da Terra, o permafrost, está, de fato, esquentando. Como resultado, os Iñupiat, que guardam a carne congelada de baleia dentro de galerias subterrâneas, verdadeiros celeiros de gêlo, estão começando a comprar freezers, porque a natureza não dando conta do calor...


A caça de uma baleia é parte fundamental da cultura Iñupiat. Mas haja estômago para aguentar tanto sangue!!!

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10/05/2008 15:21

Ciclone Nargis

O desastre em Mianmar (Birmânia) me deixou tão surpreso e atônito que não consegui mais escrever os posts que planejava. Duas semanas antes do trágico evento eu estava no país.

Durante essa semana, acompanhei os noticiários nacionais e os internacionais – principalmente, a BBC World. Os números de vítimas aumentavam a cada notícia – nos primeiros dias, desconhecia-se a dimensão do impacto do ciclone Nargis. E junto crescia a intransigência da junta militar para que a ajuda externa pudesse chegar ao país.

Com a desculpa que os estrangeiros poderiam influenciar ou mesmo sabotar o referendo de 10 de maio, foram fechadas as portas às organizações humanitárias. A retórica oficial diz que Mianmar aceita doações de qualquer nação. Mas, na prática, os vistos de entrada não são emitidos.

A região do delta do rio Irrawadi (ou Ayeyarwaddy) é de difícil acesso. As estradinhas existentes possuem inúmeras pontes e estas foram destruídas. Apenas os intrincados canais podem servir como vias de comunicação. Isso tudo complica a vida daqueles que conseguiram passar pelo desastre natural. A cada dia que passa, as possibilidades diminuem para que os sobreviventes possam ter comida e água potável.

A junta militar de Mianmar pode ficar na História como uma das mais selvagens de nosso tempo. Se milhares de pessoas morrerem a partir de agora pela falta de apoio e pelo excesso de paranóia, a junta militar poderá ser considerada como a responsável por um segundo desastre.

Existem desgraças que podem trazer uma luz no final do túnel. Esta pode ser uma delas. Dentro de alguns meses, quando os birmaneses se restabelecerem e acordarem, eles vão se lembrar da atitude egoísta do governo. A falta de visão do governo militar de Mianmar provocará, sem nenhuma dúvida, uma onda de rejeição tão grande – no país e no mundo – que o futuro da junta está com seus meses contados.

Nargis deixou mais de um milhão de desabrigados, mas seu impacto poderá ainda perdurar por mais tempo. Que seus violentos ventos consigam ter ainda a força para inspirar os governantes a lutar pela sobrevivência de seu povo e não apenas para se manter no poder.

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04/05/2008 20:58

Como é de conhecimento de todos, a região sul de Mianmar, incluindo a capital Yangon, foi devastada pelo ciclone Nargis no último sábado. Cerca de 23.000 pessoas morreram e outras 41.000 estão desaparecidas. O desastre natural soma-se à ineficiência do governo e traz mais um enorme desafio a esse povo tão estóico. As imagens e os relatos deste blog são ANTERIORES ao ciclone.


A magia da Rocha Dourada

Quando abri o guia da Birmânia, ainda no Brasil, e vi a foto de uma rocha dourada, ameaçando despencar do alto da montanha, decidi que não mediria esforços para vê-la com meus próprios olhos e, se possível, tocá-la. A rocha sagrada parece estar segura por apenas um fio de cabelo – literalmente. Na verdade, uma das lendas conta que a rocha converteu-se em um santuário há 2.500 anos (quando Buda ainda estava vivo) e que estaria colocada sobre um de seus fios de cabelo. Outro mito narra que a pedra foi trazida da beira do mar até as montanhas por anjos que a teriam deixado em equilíbrio perfeito. Mais uma vez, um fio do cabelo do Buda teria sido o elemento necessário para que a rocha não caísse!

Depois de cinco horas de estrada rumo ao sul do país, chego em Kinpum. A partir desse vilarejo, nenhum veículo particular pode seguir a estrada em ziguezague – óbvio, exceção feita aos senhores militares que dominam o país. Cogito em fazer a trilha de 10 quilômetros pela montanha, mas sou avisado que o último trecho deve ser realizado a pé, de qualquer jeito. Melhor reservar um pouco de energia para a subida final. Entro em um dos caminhões que fazem o transporte coletivo e lá vamos nós – 36 birmaneses, 3 turistas chinesas e eu – rumo à Kyaikhtiyo (pronuncie Qui-ai-tio e esqueça o resto das letras).

Quarenta e cinco minutos e 825 metros de altitude depois, chegamos ao ponto final do caminhão. Pelo menos, é o que as três chinesas e eu entendemos. Saímos do veículo. O motorista espera alguns minutos e, com todos os birmaneses a bordo, segue caminho acima. Nos sentimos ludibriados, enganados. Tento ainda parar o caminhão, mas o motorista nem tira o pé do acelerador. Eu saio da frente. A explicação: as curvas da última etapa da estrada seriam tão perigosas que o governo decidira que os estrangeiros estariam mais seguros no chão.


Os estrangeiros são obrigados a subir a pé o último trecho até Kyaikhtiyo, mas alguns poucos birmaneses também caminham como parte de sua peregrinação.

Outros quarenta e cinco minutos e mais 280 metros no altímetro e estou no topo da serra. Antes de poder ver a rocha dourada, devo passar por incontáveis lojas que vendem comidas, bebidas e artigos religiosos. São quatro da tarde, o calor já é suportável. Na entrada do santuário, deixo sapato e meias. Mas sinto que o piso ainda está morno. Imagino a temperatura do chão ao meio-dia.

Encontro vários alojamentos para os birmaneses e alguns monastérios reservados para monges. Ninguém sobe e desce à Kyaikhtiyo no mesmo dia. Todos passam pelo menos uma noite aqui em cima. Pa Than, um senhor de 60 anos de idade, vive na capital e veio para ficar uma semana. Ele é um dos doadores de um monastério e explica que o lugar é sagrado. Vários monges vem fazer seus votos aqui na Rocha Dourada.

Chego na praça principal. Todo o piso é coberto por mármore branco, o mais fresco possível. Avisto a pedra e vou em sua direção. Ela parece mesmo querer cair no penhasco. Uma pequena passarela leva até sua base. Apenas os homens podem chegar perto e tocá-la. Quase todos compram um envelope com cinco lâminas douradas. Com cuidado, cada retângulo é grudado na pedra.


Kyaikhtiyo, do alto de seus 1.105 metros de altitude, domina o vale abaixo.


Um monge gruda lâminas de ouro na pedra, num ritual de respeito com a Rocha Dourada.

O sol da tarde perde sua força, mas esquenta as cores. Centenas de pessoas se reúnem ao redor da rocha. Rezam, repetem mantras, queimam incenso e oferecem doações. Monges sentam no solo, em um lugar reservado, e passam a cantar textos sagrados. Todos ouvem com respeito. Os visitantes estão felizes por estar em Kyaikhtiyo. No budismo Teravada, alcançar um lugar santo como este significa acumular grandes méritos.


Estar em Kyaikhtiyo é sinônimo de alegria.

À medida que a luz se dissipa, o número de devotos na praça principal aumenta. Há um ambiente de festa, mesmo se a religiosidade prevalece, sempre misturada ao misticismo e à superstição. Com o pôr do sol, holofotes iluminam a rocha com vigor. A pedra fica ainda mais dourada e contrasta com o céu azul escuro – que em poucos minutos passa a ser negro. Não consigo sair do local. Parece que existe um imã. Para que ir ao hotel? Ou até mesmo jantar? Sento-me no chão e deixo a vida passar. Não é todo dia que posso estar num lugar tão mágico como Kyaikhtiyo.


A Rocha Dourada ao anoitecer. O movimento de fiéis é maior à noite, pois a temperatura amena ajuda.

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30/04/2008 00:04

Bagan: 6 horas da manhã

Bagan
– Em 1044, o imperador birmanês Anawrahta deu vida a uma planície árida no centro do país. Transformou o vilarejo de Bagan na capital de seu império, unificou a Birmânia, implantou o budismo Teravada no reino e deu início à construção de centenas de templos.

Hoje, Bagan ainda mostra um pouco da importância desse centro espiritual e cultural. Espalhados por uma área de 42 quilômetros quadrados, quase 3.000 santuários – erguidos entre o século 11 e 13 – conseguiram vencer intempéries e invasões.

Esperei 35 anos para ver esse jardim interminável de estupas. Porém, como os templos estão espalhados pela planície tórrida, eu precisava encontrar um meio de transporte apropriado para ir de um santuário a outro. A pé, estaria limitado a desvendar alguns parcos quilômetros. Ainda mais com o sol forte de verão na cabeça. A solução: uma bicicleta!

Seis horas da manhã, monto no selim duro e começo a pedalar. Se o campo plano facilita, logo me dou conta que as trilhas para chegar aos templos são de areia fofa. Preciso de força dobrada nas pernas. Mas o esforço vale a pena. Logo chego ao templo um pouco mais alto que eu buscava. Retiro os sapatos, entro no santuário e encontro uma escada estreita. Quase às cegas, consigo subir ao segundo andar e chego a uma plataforma. De lá de cima, tenho a vista que eu esperava: estou rodeado por centenas de estupas, como se tivessem sido semeadas pela planície. A luz do amanhecer e o mormaço que anuncia o calor forte do dia dão às minhas imagens um tom mágico, quase que intemporal.







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25/04/2008 00:00

Mandalay e as antigas capitais

Mandalay
– Em 1973, tirei um visto para a Birmânia. Na época, só era permitido ficar 7 dias no país, tempo suficiente para chegar na capital Yangon, comprar os bilhetes de trem e partir em direção a Mandalay e a Bagan. Nunca cheguei a utilizar o visto: o roteiro daquela viagem modificou-se completamente e esqueci a Birmânia.

Trinta e cinco anos depois, estou pronto para cumprir o mesmo roteiro. Poderia tomar o vagaroso trem (11 horas de viagem), mas, com o calor aumentando, prefiro um meio de transporte que não era disponível na época: o avião. Chego na segunda cidade do país ainda em pleno Thingyan, o Festival da Água. Mas o que me interessa mesmo é visitar a região, centro de vários reinos durante séculos.

Já tenho meu itinerário definido. Posso visitar as três antigas capitais ao redor de Mandalay em apenas um só dia. Às 7 da manhã, já estou na rua e negocio com um taxista o trajeto. Subo num mini-carro, algo entre um triciclo motorizado asiático e um veículo com quatro rodas. Aliás, em 20 segundos passamos de quatro a três rodas – literalmente. Uma das rodas quebrou! Pronto, já devo me preparar para mais uma longa negociação com algum outro taxista. Mas meu motorista não quer perder o freguês: pede 10 minutos e ele mesmo troca a peça quebrada!

Meia hora depois, chegamos em Sagaing, que foi capital do país duas vezes, em 1315 e em 1760. Hoje o poder religioso substituiu o político e é um dos grandes destinos de peregrinações. Todo monge de Mianmar passa, pelo menos, uma semana em algum dos monastérios que existem ao redor da colina principal. Resolvo subir a escadaria da colina e aproveitei para visitar cada um dos pequenos mosteiros que estava no caminho.


Um dos monastérios da colina de Sagaing estava todo ornado com bandeiras budistas da linha Teravada. As cores são diferentes do que as do budismo tibetano, o verde tendo sido substituído pelo rosa, cor das vestimentas das monjas.

Já era quase meio-dia quando resolvi partir para Inwa, local da segunda capital. O carrinho deixou-me nas margens de um canal do famoso rio Ayeyarwaddy, o principal do país, e atravessei de balsa. Do outro lado, uma charrete me esperava para que eu pudesse dar uma volta pela ilha. Nem pensar em caminhar no sol com o calor que faz.

Fundada em 1364, Inwa foi capital da Birmânia durante quase cinco séculos. Entre plantações, centenas de estupas e monumentos marcam a antiga grandeza do local. Hoje, vale a pena visitar três ou quatro monastérios que continuaram de pé. O mosteiro Me Nu Okkyaung, uma construção de sete andares em tijolo, mas que imita os detalhes das construções em madeira.


Me Nu Okkyaung ainda é utilizado pelos monges.

Por mais que eu beba água, o calor das duas da tarde chega ao ponto de ser insuportável. Tenho minhas dúvidas se o pobre cavalo da carroça conseguirá me levar de volta à balsa, para que eu possa cruzar o canal. Meu relógio aponta 39 graus!

De volta ao carrinho – sim, ele continua funcionando bem, mesmo depois do susto matinal – vamos para Amarapura. Também foi capital do reinado por duas vezes, em 1783 e em 1840. Infelizmente, seu antigo palácio foi desmontado e o material utilizado na construção da fortaleza de Mandalay. Hoje pouco coisa sobrou. A principal marca da grandeza de Amapura é a ponte de madeira U Bein, sobre o lago Thaungthaman, de quase 300 metros de comprimento. Foi montada com teca, uma madeira nobre local, recuperada dos escombros dos palácios de Inwa e Sagaing.

Foi dessa ponte de madeira que compreendi mais uma vez a importância da água para os birmaneses nessa época de festas. O lago de Amarapura é um dos lugares escolhidos para a celebração do Festival da Água e todos os birmaneses fazem questão de entrar, de roupa e tudo, dentro d’água. Alguns até colocam uma mesinha de bar e cadeiras DENTRO do lago para curtir as celebrações! A verdade é que, só de ver a água, eu já senti com bem menos calor. Não é apenas uma coincidência que esse festival aconteça no início da época mais quente do ano!


Todos os foliões entram dentro do lago Thaungthaman para celebrar o Festival da Água. E também se refrescar!


Bar aquático no lago Thaungthaman.

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23/04/2008 00:00

Farsa ou maionese?

Recebi essa foto e resolvi colocar no blog como sinal de alerta. A imagem teria sido fotografada por um estrangeiro (no dia 20 de março) e agora percorre o mundo.

Essa foto poderia ser uma das provas da farsa dos chineses no Tibete. Não sei em que cidade a foto foi tirada, mas o triciclos são bem parecidos aos de Lhasa, capital do Tibete. Comparei com uma foto que tirei de um triciclo na mesma cidade e a cor verde, a decoração amarela ao lado e o teto são os mesmos. Também podemos notar que os civis (de pé e no triciclo) tem feições bem semelhantes às dos tibetanos. Os policias, vestidos com seus uniformes típicos, seguram roupas vermelhas e amarelas... coincidentemente, como os mantos dos monges budistas tibetanos! Outra supresa: todos os policias tem suas cabeças totalmente raspadas, outra característica dos monges. A imagem também poderia dar a entender que eles estariam esperando alguma ordem para trocarem de roupa, vestirem-se como monges e criar alguma confusão que, mais tarde, viria a colocar a culpa nos budistas tibetanos.

Será mesmo que um país tão próspero e poderoso como a China, na véspera de realizar suas Olimpíadas, usaria uma tática tão vil e mentirosa? E ainda mais, deixar os policias com os mantos nas mãos, no meio da rua? Talvez eu esteja viajando na maionese e os policias chineses queriam apenas levar mantos novos, como presente, aos monges tibetanos...


E você, o que acha da foto? Foi montada? Incrimina? Alguma outra idéia ou possibilidade?

PS 30/4/08: Nem farsa, nem maionese, mas Hollywood! Graças a Karen Monesi, uma budista tibetana (brasileira) que vive na India, o mistério da foto acima foi desvendado. Como ela mencionou no comentário # 21, a imagem é de um filme rodado no Tibete há uns cinco anos. Como os monges não queriam participar como figurantes no filme, os policiais locais teriam se prontificado a se disfarçar de devotos budistas. Por isso, os militares nas ruas estariam com as roupas de monges em suas mãos. Entretanto, isso não impede o fato que policiais chineses tenham podido usar, em março último, esse mesma estratégia e disfarce. Mas a prova disso não seria essa foto...

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21/04/2008 09:55

Lavando a Alma!

Yangon -
No hotel, encontro Thida Mai e conto minhas primeiras peripécias. Ela sorri, como se estivesse ouvindo uma história da boca de seu filho de 8 anos. “Você não viu nada ainda. Essas brincadeiras são pouca coisa em comparação ao que você verá amanhã, quando o festival realmente começar. Não deixe de ir à Inya Road!”

No dia seguinte, com coragem, toalha do hotel e sacos de plástico, decido visitar alguns palanques do Festival da Água. Começo a entender a equação e a brincadeira. As mangueiras funcionam de manhã, das 9 h ao meio dia, e à tarde, das 15 h ao por do sol. Os jipes e as camionetas abertas passam bem pertinho das arquibancadas para que os passageiros – geralmente famílias inteiras – possam ser devidamente molhados. Os veículos chegam a ficar parados para receber uma constante ducha. Parece até um lava-a-jato! E as janelas permanecem abertas! Algumas camionetas transportam um barril de 200 litros de água na traseira, para que os passageiros possam também regar os que estão na arquibancada. Ou seja, de carro ou no estande, o objetivo é molhar e ser molhado!


Na maioria das arquibancadas, um sistema de chuveirinho assegura que os foliões estejam molhados o tempo todo.


Até as bicicletas não escapam dos jatos de água lançados dos estandes.

Consigo manter minha câmera relativamente seca. Tomo coragem e resolvo ir a Inya Road, o point da moçada. O taxista avisa que é impossível chegar de carro até o local. Ele me larga a quase um quilômetro. O jeito é caminhar. O movimento de gente aumenta, todos fluindo na mesma direção. Para os vendedores ambulantes – os únicos que parecem estar trabalhando – essa massa de gente significa uma boa oportunidade para vender bebidas e comidas.

Para participar da festa do Ano Novo (Thingyan), a entrada diária – um crachá plastificado – para brincar numa arquibancada custa de 15 a 20 dólares. Para os quatro dias, pode valer 50. Considerando que uma grande parte da população de Mianmar não ganha esse valor como salário mensal, essa brincadeira de fim de ano nas arquibancadas, com direito a som e snack, está reservada aos capitalinos de classe média. Alguns estudantes economizaram seus parcos dólares durante o ano todo para participar do evento.

Um dos sucessos de Inya Road é sua localização ao lado de um lago e de uma área verde. Por isso, foram montados no local mais de 20 estandes, cada um com seu sistema próprio de som e de água. Esta é bombeada do lago e chega em mangueiras tipo Corpo de Bombeiros, com pressão total. À medida que me aproximo da confluência com Inya Road, o som frenético do hip hop aumenta. O ritmo alucinante não deixa ninguém parado. A avenida toda dança e pula! São apenas 10 horas da manhã, mas garrafas de cerveja e de whisky passam de mão em mão. Aqui não é o ambiente controlado e organizado dos estandes perto do hotel. Começo a entender que, em Inya Road, vale tudo!




Quatro dias de festas non stop em Inya Road!


E lá se vão litros e litros de água por segundos!!!

Como Inya Road está em declive, a água de todas as arquibancadas escorre em uma única direção. No final da rua, encontro um riacho: tem até correnteza! As crianças menores aproveitam para tomar banho, como se estivessem dentro de um caudaloso rio. Fico abismado com a quantidade de água que é desperdiçada. São milhares de litros por minuto. Em todo o país, milhões. Talvez bilhões de litros!


A criançada brinca na correnteza do riacho que vem de Inya Road.

Tento fazer rápidos cálculos de toda essa água. Mas sou interrompido por gritos de alegria da criançada que pede para ser fotografada. Todos estão contentes e o importante é celebrar o Ano Novo. Em última instância – pensando com certa condescendência ambiental – esse turbilhão de água vai acabar no mesmo lago de onde saiu. Para um povo que vive reprimido por um duro regime militar, esse feriadão de Thingyan representa uma pausa na busca sofrida de seu ganha-pão cotidiano. Ninguém quer falar de política. Preferem esquecer os duros meses que passaram e deixar que a água lave todas as emoções, trazendo um Feliz Ano 1370!

E, aproveitando, Feliz Dia da Terra amanhã!

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19/04/2008 14:34

Nesses últimos 12 dias estive em Mianmar (antiga Birmânia), um país fascinante e complicado. Uma das complicações é que a Internet, além de ser lenta, tem censura. Por isso, não consegui colocar nenhum post desde a terra dos pagodes dourados... Mas, mesmo se com alguns poucos dias de atraso, aqui vão minhas historinhas...


Muita Água e Feliz Ano Novo

Yangon
- Nos países do sudeste asiático – como Tailândia, Camboja, Laos e Mianmar – o Ano Novo é celebrado com muita água. Para os budistas da linha Theravada, o líquido cristalino simboliza a vida, purifica os eventuais pecados e traz renovação para o novo ciclo. Portanto, receber uma benção com água significa receber também “bons fluídos” – literalmente – para o ano que se inicia.

Até uns 10 ou 20 anos atrás, a tradição era colocar água – perfumada com flores – em um vasilha de prata e aspergir gotas sobre as pessoas queridas. Mas esse ritual gentil transformou-se na maior festa nacional dos quatro países e tomou proporções de um verdadeiro carnaval. Durante cinco dias, mais de 130 milhões de habitantes não pensam no seu cotidiano e se dedicam apenas a brincar com muita água. “Proteja a sua câmera fotográfica e coloque seu dinheiro e documentos em um saco de plástico”, disse Thida Mai, uma birmanesa que vive nos Estados Unidos e que vem anualmente visitar a família nessa época das festas. “Ninguém fica seco durante esses dias.”

O Festival da Água é celebrado em Mianmar entre os dias 13 e 16 de abril. Mas, na prática, muita coisa começa a acontecer na véspera do feriadão, no dia 12. Por isso, saio do meu hotel em Yangon prevenido e sigo à risca as recomendações de Thida. Não demora nem 30 segundos para o primeiro susto: um balde de água, jogado do terceiro andar do prédio vizinho, despenca sobre a cabeça de duas jovens que passam ao meu lado na calçada. É o primeiro banho delas – certamente não o último. Aproveito a ocasião: troco uma risada de cumplicidade com os garotos do terceiro andar e esperamos juntos as próximas vítimas. Chuáaaa...


Caminho apenas 20 metros e sinto as primeiras emoções do Festival da Água. Três jovens, pegos de surpresa, são encharcados com o balde de água jogado do alto do prédio!

Antes que eu passe a ser o próximo alvo, sigo meu caminho, olhando para todos os lados e, principalmente, para cima. De pé em uma camioneta aberta, cinco adolescentes ameaçam me molhar, usando garrafas PET. Levanto a câmera (protegida com camadas de plástico) como se erguesse uma bandeira branca de paz. Por um instante, penso que um estrangeiro é uma presa ainda mais fácil e divertida... mas sou poupado! Percebo na cara deles quase que um sorrisos de compaixão!

A cada passo que dou, checo os riscos que tenho pela frente. A poucos metros, uma jovem na calçada segura a tal da vasilha tradicional prateada, cheia de água. Ela espera o próximo pedestre para completar seu ritual. Saio de perto e me coloco em uma posição perfeita para a foto, torcendo para que a moça de vestido negro que se aproxima não fuja da raia. A menina sorri, leva a vasilha na altura dos ombros da desconhecida e derrama um litro de água sobre o vestido negro. Tudo sem um pingo de agressividade e com muitos sorrisos, pois faz parte da tradição deixar que o banho aconteça. Na verdade, a água não deve ser evitada pois poderia trazer azar. “Traz riqueza para o ano seguinte”, afirmou Mying Mying, a que deu o banho de maneira tão suave.


O banho de água no festival deve ser aceito sempre na esportiva e com grandes sorrisos. Afinal, é boa sorte do ano seguinte.

Continuo caminhando pelo centro da capital Yangon. Em uma das avenidas, alguns operários terminam de montar um palanque de madeira. No dia seguinte, dezenas de jovens estarão empilhados nessa arquibancada, prontos para molhar os que passarão por perto. Contarão com uma arma adicional: um cano de duas polegadas foi acoplado a uma tubulação de água da rua – tenho minhas dúvidas se foi legalmente. O líquido, com pressão, terá um tremendo poder de fogo!

Nos últimos anos, a vasilha prateada também foi substituída por revolveres e fuzis de plástico. Sonho de qualquer menino de 7 anos, as armas coloridas (certamente produzidas na China ou na Tailândia) foram desenhadas para armazenar uma boa quantidade de munição. Um garoto, a bordo de uma camioneta de transporte público, passa distribuindo sua “água benta” a toda e qualquer pessoa que está em seu raio de ação.


Sorriso maroto e muito esguicho para quem chegar perto.

Consigo caminhar toda uma manhã pelo centro da capital sem receber nenhum banho. Retorno são, seco e salvo em direção ao hotel quando sinto, na minha nuca, algo parecido com um choque elétrico. Assustado, viro a cara e encontro o sorriso suave de Mying Mying. Ela acaba de despejar uma vasilha cheia de água – dessa vez, gelada – nas minhas costas. Estou encharcado, mas também abençoado…

Mais Festival da Água no próximo post.

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17/04/2008 00:00

Butão: Fauna Rica

Nosso motorista Ib Khan dá uma freada brusca. Eu estava na janela certa, com a lente correta e com velocidade e luz exata. Um macaco langur cinza está confortavelmente sentado em um galho e tenho o ângulo perfeito para fotograf¬á-lo. Sem assustá-lo. Nem preciso abrir a porta. Fico contente. O fato que possamos encontrar um primata na beira da estrada – mesmo se estreita, esta é a principal via de acesso ao centro do país – indica claramente que os habitantes das florestas sentem-se em um ambiente seguro.


Um langur cinza, na beira da floresta de rododendros e magnólias.


Poucos quilômetros depois encontramos a bifurcação para o vale de Phobjika. Continuamos com a lógica butanesa de estrada: quando não se desce, sobe. Ou vice versa. O vale de Phobjika manteve-se isolado por muito tempo e até hoje o principal vilarejo, Gangtey, não possui luz elétrica. Mas a razão não é uma simples falta de estrutura, mas a proteção de uma espécie de ave em extinção, a grua de pescoço negro (Grus nigricollis). As gruas escolheram esse vale a 2.900 metros de altitude como sua residência de inverno, de novembro a março. Durante o resto do ano, elas regressam ao seu habitat natural, o planalto tibetano.

Quando eu havia marcado a data de minha viagem ao Butão, eu já sabia que não encontraria mais as duas centenas de pássaros que visitam Phobjika anualmente. Mas, sempre confiante e otimista, inclui mesmo assim Phobjika no roteiro. Quem sabe existem alguns animais retardatários e machucados – ou até mesmo pássaros friorentos que tenham decidido curtir um pouco mais a temperatura amena do vale?

Dito e feito. No meio do brejo formado por dois córregos que vêm dos nevados, ali estão três gruas. Consigo algumas imagens delas no chão. De repente, sem mesmo me avisar, alçam vôo. Espero alguns minutos para que as três aves regressem ao solo, mas elas sobem cada vez mais, sempre em círculo. Será que cheguei no momento final de embarque. O guia Chador responde que sim: “Quando partem para o Tibete elas dão três voltas em cima daquele templo”, afirma, mostrando-me o santuário. “Foi o que elas acabaram de fazer. Agora só regressarão em novembro.”


As três gruas retardatárias ciscando no brejo do vale Phobjika.


As três gruas em vôo lembram o logo do partido DPT que venceu as eleições parlamentares.


Depois de confirmadas as três voltas em cima do templo, elas partem para o Tibete.

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15/04/2008 00:00

Natureza do Butão: um paraíso para botânicos

A primeira surpresa que tive no Butão foi observar que as águas de todos os rios são cristalinas. Porém um olhar um pouco mais minucioso também me mostrou que suas margens começam a incluir pontos brilhantes azuis, brancos, verdes ou rosas. São as embalagens metalizadas de snack food e de produtos que chegam da Índia. Também vi um ou outro saco de plástico, embora a grande maioria dos estabelecimentos comerciais usem agora bolsas de tecido ou de papel.

Essa poluição – ainda que em estado embrionário – é explicada por Kempo Phunto Tashi, o diretor do Museu Nacional de Thimphu. “Todos esses produtos são novos para nossa população. Na década passada, ainda usávamos folhas de bananeira ou bules de bambu como prato. Depois, poderíamos jogar fora e a natureza tomava conta. Os hábitos continuaram, mas o problema é que o plástico não se desintegra como os produtos naturais”, afirma. “Estamos atentos para que nosso país não se torne uma lixeira. A população é ingênua e a educação já começa nas escolas, nos monastérios e serviços públicos.”

O pequeno reino do Butão (com uma área e forma retangular semelhante ao Espírito Santo) é um país de picos nevados e vales verdejantes que chegam até a planície do sub-continente indiano. As altitudes variam de 7.500 a 100 metros! O país reservou 26% de seu território para áreas protegidas e 65% das terras são ainda cobertas por florestas temperadas e de coníferas.

Para sair de Thimphu em direção aos vales centrais, preciso passar por um passo de montanha a 3.150 metros, Dochu La. O lugar é ornado com 108 estupas budistas e milhares de bandeiras de preces. A paisagem na outra vertente da montanha é totalmente diferente: uma floresta variada e com árvores centenárias. Estamos na primavera e pontos vermelhos aparecem. São rododendros, uma espécie endêmica do Himalaia. Continuamos a descer e vejo um arbusto florido. Logo, uma árvore. Suas flores vermelhas são redondas como um pompom. Agora são cinco, dez, vinte árvores. Estamos cercados de rododendros! Estamos numa floresta de flores!


Um buquê de rododendros vermelhos: mais bonito que árvore de natal!



Rododendros em volta da estupa de Chendebji.


Durante a viagem ao Butão consegui fotografar quatro espécies de rododendros floridos. Além do vermelho, encontramos brancos, rosas e amarelos. No total, existem umas 50 espécies no país e só nas encostas de Dochu La, já foram identificadas 16 de rododendros.


Encontramos a flor rosa do rododendro no alto de um penhasco: Zsolt e eu vamos atrás.


Mas a maior surpresa estava ainda por chegar: magnólias floridas. Como as árvores ainda estão sem as primeiras folhas, o contraste das pétalas brancas, iluminadas pelo sol, sobre o fundo cinza das montanhas ou verde escuro das florestas é ainda mais impressionante. Nosso motorista Ib Khan tem a maior paciência conosco. Catarina, uma botânica nata, quer parar em cada curva! Chegamos à noite no nosso destino, mas o show de flores valeu a pena!


Frondosas árvores de magnólias brancas!

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12/04/2008 00:00

Continuação do post anterior

No Ninho do Tigre (parte 2)


Somos recebidos em Taktsang, o Ninho do Tigre, por um labirinto de bandeiras de prece.


Como acontece na porta de todo templo no Butão, as máquinas fotográficas fazem um retiro forçado. As imagens dos lugares sagrados são reservadas apenas para os olhos. Conformado, fico com as mãos livres. Os dois santuários, com paredes pintadas, símbolos budistas pendurados e odor de incenso e de gordura queimada, demandam uma mudança de astral – nada de pensar que estou ainda no pique de subir montanhas.

É no terceiro templo, precisamente o dedicado a Buda Padmasambava, onde fico estático, surpreso por algo inexplicável. Beleza, magnetismo, profusão de cores? Minha respiração transforma-se, sinto necessidade de sentar. Logo depois, de sossegar e fechar os olhos. Meus companheiros Zsolt e Catarina fazem o mesmo – a vibração de paz parece ser maior do que qualquer outra necessidade.

Não sei quanto tempo passa. Sinto-me diferente, como se tivesse bebido uma infusão de serenidade, compaixão e amor. Ninguém quer emitir nenhum som. Saímos do santuário e descemos descalçados a escada, pisando no chão frio. O vento lá no alto do desfiladeiro começa a ganhar força.


O monastério está a mais de 500 metros acima do nosso ponto de partida e a 900 metros acima do vale.

Exatamente no andar de baixo está a caverna onde Padmasambava – e tantos outros sábios – teriam meditado meses e anos a fio. Penetramos no recinto com o maior respeito. Um monge oferece um fino barbante colorido (chamado sunkay) para ser colocado em volta ao pescoço. É uma forma de receber uma doação para apoiar o templo. Aceito e ganho um amarelo, com um dorje (simboliza o relâmpago) na extremidade. O lama amarra as duas pontas, dá três leves sopros sobre o nó e coloca a benção ao redor da minha cabeça.

Meu compadre Zsolt faz o mesmo. O monge repete o ritual. Quando está no auge – os três sopros sobre o recém criado nó, junto com um manta – seu celular toca. E toca alto, em um ritmo animado, que parece até um rock butanês. Levamos o maior susto. Mas o lama, tranquilo, continua com suas duas tarefas, como se tivesse dois cérebros: fala energeticamente pelo telefone e agora benze o sunkay da Catarina. Ela não acredita na cena.

Foi bom termos tomado um choque e caído das nuvens. Temos vários quilômetros pela frente e a trilha do Ninho do Tigre conta com trechos ingrimes, estreitos e perigosos. É na descida que se toma mais escorregões. O tempo está cada vez mais encoberto e frio. Uma quarta latina junta-se ao grupo. Sabrina, uma chef de cozinha cordon bleu. Ela também havia recebido um barbantinho consagrado pelo monge e pelo celular.

A cena polêmica é motivo de horas de discussões. A benção de um sunkay passou a ser um mero ritual mecânico? O celular melhora as comunicações, mas também traz a banalização? Teria sido um telefonema importante, de um lama superior, que ele não poderia deixar de atender? Estava ele concentrado na benção e no mantra, mesmo se falando por telefone? Deixo as perguntas no ar. E talvez você também queira opinar...


Um jovem monge acompanha nossa saída do Ninho do Tigre.
Com ou sem celular? :)


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10/04/2008 00:00

Enquanto viajo pelo leste da Índia – onde não deverei ter conexões internet – continuo o blog com alguns posts (a cada dois dias) sobre a viagem ao Butão.

No Ninho do Tigre (parte 1)


Paro – O Butão foi palco de incontáveis batalhas. As mais importantes não foram entre humanos que atacavam ou defendiam territórios. As que ficaram na mente do povo e viraram lendas foram as pugnas mágicas entre poderosos gurus e forças espirituais negativas. Uma das mais famosas lutas aconteceu quando Guru Rimpoche, o Buda Padmasambava (aquele que está na Tangkha do Tsechu de Paro – veja post de 22/3 e vídeo de 29/3), voou às costas de uma tigresa para vencer demônios que eram hostis à implantação do budismo no Butão. Ele acabou no topo de um desfiladeiro de 900 metros de altura e lá teria ficado a meditar numa caverna durante três meses. O lugar virou sagrado, transformou-se em um monastério e tomou o nome de Taktsang, Ninho do Tigre.

Lá de baixo, as paredes do mosteiro são como pequenos pontos brancos longínquos. Quando a estradinha termina, nosso guia Chador pergunta se estamos preparados para a caminhada. Eu olho para o lado e vejo alguns cavalos esperando montaria. “Não, nem pensar!” respondo para minha mente preguiçosa. Mesmo se o poderoso Padmasambava chegara lá em cima com a ajuda de uma tigresa, eu usaria minhas próprias pernas.


Visitantes mais idosos usam mulas para evitar o desgaste da subida.

São 8:30 da manhã. O céu está totalmente azul e o ar fresco dá um vigor adicional. Olho o altímetro do relógio: 2.640 metros – 400 metros acima da cidade de Paro. Dou o primeiro passo, sabendo que tenho pelo menos outros 5.000 pela frente. Algo dentro de mim diz que esse passeio não é um treking turístico.

Os primeiros 100 metros de desnível são mais fáceis que os segundos. Mas basta eu ver, entre os galhos, a montanha onde está empoleirado o pequeno monastério para recuperar o fôlego. A monotonia do ziguezague em subida também ajuda a manter a concentração. Numa das paradas, encontro dois monges, com suas roupas vermelhas e alaranjadas, sentados em uma pedra, olhando lá para cima. Cada um carrega nas costas um grande vulto. Nos comunicamos apenas com sorrisos, pois eles não falam inglês. Chador chega e confirma o que eu suspeitara: “Eles vão para Taktsang fazer um retiro de três anos, três meses e três dias”, diz o guia. Meu sorriso amável passa a ser uma reverência de respeito.


Esse monge vai passar mais de três anos no monastério

Estamos na segunda hora de subida quando chegamos a uma cabana. Surpresa: todos os caminhantes são recebidos com uma taça de chá. Coloco mais açúcar do que o normal e sento-me numa cadeira com vista para o monastério. Pela primeira vez, Taktsang parece estar perto. Checo a altitude: já passamos dos 3.000 metros.

Continuamos a ascensão e, após uma curva na trilha que beira o desfiladeiro, o mosteiro aparece à nossa frente. Estamos a 3.145 metros, 505 acima do ponto de partida. Um detalhe: embora estejamos no mesmo nível, um tremendo buraco nos separa do templo. Precisamos descer 100 metros, passar por uma cachoeira e subir outros tantos metros. Na descida, encontro um santuário. Os devotos entram para acender uma pequena lâmpada de óleo. Antes usavam manteiga de iaque, hoje gordura vegetal.


Um cálice de óleo e bandeiras de prece no santuário, antes da chegada ao Ninho do Tigre.

No total, levamos três horas para chegar até o portão do monastério. Se não tivéssemos parado tantas vezes teríamos feito o percurso na metade do tempo. Mas para que ter tanta pressa? O prazer de saborear essa subida com calma rende muito mais.

(continua)

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Haroldo Castro

Haroldo Castro possui três paixões: contar estórias com fotos e crônicas, estar na natureza e viajar intensamente. Criou o conceito de Viajologia, que reconhece a viagem como uma escola dinâmica. Tem mais de 30 anos de experiência como fotógrafo, jornalista, diretor de documentários e estrategista de comunicação. Morou no Brasil, na França e nos Estados Unidos; trabalha em quatro idiomas e conhece mais de 130 países.

> O estrategista da natureza

 
 
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