15/04/2008 00:00

Natureza do Butão: um paraíso para botânicos

A primeira surpresa que tive no Butão foi observar que as águas de todos os rios são cristalinas. Porém um olhar um pouco mais minucioso também me mostrou que suas margens começam a incluir pontos brilhantes azuis, brancos, verdes ou rosas. São as embalagens metalizadas de snack food e de produtos que chegam da Índia. Também vi um ou outro saco de plástico, embora a grande maioria dos estabelecimentos comerciais usem agora bolsas de tecido ou de papel.

Essa poluição – ainda que em estado embrionário – é explicada por Kempo Phunto Tashi, o diretor do Museu Nacional de Thimphu. “Todos esses produtos são novos para nossa população. Na década passada, ainda usávamos folhas de bananeira ou bules de bambu como prato. Depois, poderíamos jogar fora e a natureza tomava conta. Os hábitos continuaram, mas o problema é que o plástico não se desintegra como os produtos naturais”, afirma. “Estamos atentos para que nosso país não se torne uma lixeira. A população é ingênua e a educação já começa nas escolas, nos monastérios e serviços públicos.”

O pequeno reino do Butão (com uma área e forma retangular semelhante ao Espírito Santo) é um país de picos nevados e vales verdejantes que chegam até a planície do sub-continente indiano. As altitudes variam de 7.500 a 100 metros! O país reservou 26% de seu território para áreas protegidas e 65% das terras são ainda cobertas por florestas temperadas e de coníferas.

Para sair de Thimphu em direção aos vales centrais, preciso passar por um passo de montanha a 3.150 metros, Dochu La. O lugar é ornado com 108 estupas budistas e milhares de bandeiras de preces. A paisagem na outra vertente da montanha é totalmente diferente: uma floresta variada e com árvores centenárias. Estamos na primavera e pontos vermelhos aparecem. São rododendros, uma espécie endêmica do Himalaia. Continuamos a descer e vejo um arbusto florido. Logo, uma árvore. Suas flores vermelhas são redondas como um pompom. Agora são cinco, dez, vinte árvores. Estamos cercados de rododendros! Estamos numa floresta de flores!


Um buquê de rododendros vermelhos: mais bonito que árvore de natal!



Rododendros em volta da estupa de Chendebji.


Durante a viagem ao Butão consegui fotografar quatro espécies de rododendros floridos. Além do vermelho, encontramos brancos, rosas e amarelos. No total, existem umas 50 espécies no país e só nas encostas de Dochu La, já foram identificadas 16 de rododendros.


Encontramos a flor rosa do rododendro no alto de um penhasco: Zsolt e eu vamos atrás.


Mas a maior surpresa estava ainda por chegar: magnólias floridas. Como as árvores ainda estão sem as primeiras folhas, o contraste das pétalas brancas, iluminadas pelo sol, sobre o fundo cinza das montanhas ou verde escuro das florestas é ainda mais impressionante. Nosso motorista Ib Khan tem a maior paciência conosco. Catarina, uma botânica nata, quer parar em cada curva! Chegamos à noite no nosso destino, mas o show de flores valeu a pena!


Frondosas árvores de magnólias brancas!

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17/04/2008 00:00

Butão: Fauna Rica

Nosso motorista Ib Khan dá uma freada brusca. Eu estava na janela certa, com a lente correta e com velocidade e luz exata. Um macaco langur cinza está confortavelmente sentado em um galho e tenho o ângulo perfeito para fotograf¬á-lo. Sem assustá-lo. Nem preciso abrir a porta. Fico contente. O fato que possamos encontrar um primata na beira da estrada – mesmo se estreita, esta é a principal via de acesso ao centro do país – indica claramente que os habitantes das florestas sentem-se em um ambiente seguro.


Um langur cinza, na beira da floresta de rododendros e magnólias.


Poucos quilômetros depois encontramos a bifurcação para o vale de Phobjika. Continuamos com a lógica butanesa de estrada: quando não se desce, sobe. Ou vice versa. O vale de Phobjika manteve-se isolado por muito tempo e até hoje o principal vilarejo, Gangtey, não possui luz elétrica. Mas a razão não é uma simples falta de estrutura, mas a proteção de uma espécie de ave em extinção, a grua de pescoço negro (Grus nigricollis). As gruas escolheram esse vale a 2.900 metros de altitude como sua residência de inverno, de novembro a março. Durante o resto do ano, elas regressam ao seu habitat natural, o planalto tibetano.

Quando eu havia marcado a data de minha viagem ao Butão, eu já sabia que não encontraria mais as duas centenas de pássaros que visitam Phobjika anualmente. Mas, sempre confiante e otimista, inclui mesmo assim Phobjika no roteiro. Quem sabe existem alguns animais retardatários e machucados – ou até mesmo pássaros friorentos que tenham decidido curtir um pouco mais a temperatura amena do vale?

Dito e feito. No meio do brejo formado por dois córregos que vêm dos nevados, ali estão três gruas. Consigo algumas imagens delas no chão. De repente, sem mesmo me avisar, alçam vôo. Espero alguns minutos para que as três aves regressem ao solo, mas elas sobem cada vez mais, sempre em círculo. Será que cheguei no momento final de embarque. O guia Chador responde que sim: “Quando partem para o Tibete elas dão três voltas em cima daquele templo”, afirma, mostrando-me o santuário. “Foi o que elas acabaram de fazer. Agora só regressarão em novembro.”


As três gruas retardatárias ciscando no brejo do vale Phobjika.


As três gruas em vôo lembram o logo do partido DPT que venceu as eleições parlamentares.


Depois de confirmadas as três voltas em cima do templo, elas partem para o Tibete.

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19/04/2008 14:34

Nesses últimos 12 dias estive em Mianmar (antiga Birmânia), um país fascinante e complicado. Uma das complicações é que a Internet, além de ser lenta, tem censura. Por isso, não consegui colocar nenhum post desde a terra dos pagodes dourados... Mas, mesmo se com alguns poucos dias de atraso, aqui vão minhas historinhas...


Muita Água e Feliz Ano Novo

Yangon
- Nos países do sudeste asiático – como Tailândia, Camboja, Laos e Mianmar – o Ano Novo é celebrado com muita água. Para os budistas da linha Theravada, o líquido cristalino simboliza a vida, purifica os eventuais pecados e traz renovação para o novo ciclo. Portanto, receber uma benção com água significa receber também “bons fluídos” – literalmente – para o ano que se inicia.

Até uns 10 ou 20 anos atrás, a tradição era colocar água – perfumada com flores – em um vasilha de prata e aspergir gotas sobre as pessoas queridas. Mas esse ritual gentil transformou-se na maior festa nacional dos quatro países e tomou proporções de um verdadeiro carnaval. Durante cinco dias, mais de 130 milhões de habitantes não pensam no seu cotidiano e se dedicam apenas a brincar com muita água. “Proteja a sua câmera fotográfica e coloque seu dinheiro e documentos em um saco de plástico”, disse Thida Mai, uma birmanesa que vive nos Estados Unidos e que vem anualmente visitar a família nessa época das festas. “Ninguém fica seco durante esses dias.”

O Festival da Água é celebrado em Mianmar entre os dias 13 e 16 de abril. Mas, na prática, muita coisa começa a acontecer na véspera do feriadão, no dia 12. Por isso, saio do meu hotel em Yangon prevenido e sigo à risca as recomendações de Thida. Não demora nem 30 segundos para o primeiro susto: um balde de água, jogado do terceiro andar do prédio vizinho, despenca sobre a cabeça de duas jovens que passam ao meu lado na calçada. É o primeiro banho delas – certamente não o último. Aproveito a ocasião: troco uma risada de cumplicidade com os garotos do terceiro andar e esperamos juntos as próximas vítimas. Chuáaaa...


Caminho apenas 20 metros e sinto as primeiras emoções do Festival da Água. Três jovens, pegos de surpresa, são encharcados com o balde de água jogado do alto do prédio!

Antes que eu passe a ser o próximo alvo, sigo meu caminho, olhando para todos os lados e, principalmente, para cima. De pé em uma camioneta aberta, cinco adolescentes ameaçam me molhar, usando garrafas PET. Levanto a câmera (protegida com camadas de plástico) como se erguesse uma bandeira branca de paz. Por um instante, penso que um estrangeiro é uma presa ainda mais fácil e divertida... mas sou poupado! Percebo na cara deles quase que um sorrisos de compaixão!

A cada passo que dou, checo os riscos que tenho pela frente. A poucos metros, uma jovem na calçada segura a tal da vasilha tradicional prateada, cheia de água. Ela espera o próximo pedestre para completar seu ritual. Saio de perto e me coloco em uma posição perfeita para a foto, torcendo para que a moça de vestido negro que se aproxima não fuja da raia. A menina sorri, leva a vasilha na altura dos ombros da desconhecida e derrama um litro de água sobre o vestido negro. Tudo sem um pingo de agressividade e com muitos sorrisos, pois faz parte da tradição deixar que o banho aconteça. Na verdade, a água não deve ser evitada pois poderia trazer azar. “Traz riqueza para o ano seguinte”, afirmou Mying Mying, a que deu o banho de maneira tão suave.


O banho de água no festival deve ser aceito sempre na esportiva e com grandes sorrisos. Afinal, é boa sorte do ano seguinte.

Continuo caminhando pelo centro da capital Yangon. Em uma das avenidas, alguns operários terminam de montar um palanque de madeira. No dia seguinte, dezenas de jovens estarão empilhados nessa arquibancada, prontos para molhar os que passarão por perto. Contarão com uma arma adicional: um cano de duas polegadas foi acoplado a uma tubulação de água da rua – tenho minhas dúvidas se foi legalmente. O líquido, com pressão, terá um tremendo poder de fogo!

Nos últimos anos, a vasilha prateada também foi substituída por revolveres e fuzis de plástico. Sonho de qualquer menino de 7 anos, as armas coloridas (certamente produzidas na China ou na Tailândia) foram desenhadas para armazenar uma boa quantidade de munição. Um garoto, a bordo de uma camioneta de transporte público, passa distribuindo sua “água benta” a toda e qualquer pessoa que está em seu raio de ação.


Sorriso maroto e muito esguicho para quem chegar perto.

Consigo caminhar toda uma manhã pelo centro da capital sem receber nenhum banho. Retorno são, seco e salvo em direção ao hotel quando sinto, na minha nuca, algo parecido com um choque elétrico. Assustado, viro a cara e encontro o sorriso suave de Mying Mying. Ela acaba de despejar uma vasilha cheia de água – dessa vez, gelada – nas minhas costas. Estou encharcado, mas também abençoado…

Mais Festival da Água no próximo post.

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21/04/2008 09:55

Lavando a Alma!

Yangon -
No hotel, encontro Thida Mai e conto minhas primeiras peripécias. Ela sorri, como se estivesse ouvindo uma história da boca de seu filho de 8 anos. “Você não viu nada ainda. Essas brincadeiras são pouca coisa em comparação ao que você verá amanhã, quando o festival realmente começar. Não deixe de ir à Inya Road!”

No dia seguinte, com coragem, toalha do hotel e sacos de plástico, decido visitar alguns palanques do Festival da Água. Começo a entender a equação e a brincadeira. As mangueiras funcionam de manhã, das 9 h ao meio dia, e à tarde, das 15 h ao por do sol. Os jipes e as camionetas abertas passam bem pertinho das arquibancadas para que os passageiros – geralmente famílias inteiras – possam ser devidamente molhados. Os veículos chegam a ficar parados para receber uma constante ducha. Parece até um lava-a-jato! E as janelas permanecem abertas! Algumas camionetas transportam um barril de 200 litros de água na traseira, para que os passageiros possam também regar os que estão na arquibancada. Ou seja, de carro ou no estande, o objetivo é molhar e ser molhado!


Na maioria das arquibancadas, um sistema de chuveirinho assegura que os foliões estejam molhados o tempo todo.


Até as bicicletas não escapam dos jatos de água lançados dos estandes.

Consigo manter minha câmera relativamente seca. Tomo coragem e resolvo ir a Inya Road, o point da moçada. O taxista avisa que é impossível chegar de carro até o local. Ele me larga a quase um quilômetro. O jeito é caminhar. O movimento de gente aumenta, todos fluindo na mesma direção. Para os vendedores ambulantes – os únicos que parecem estar trabalhando – essa massa de gente significa uma boa oportunidade para vender bebidas e comidas.

Para participar da festa do Ano Novo (Thingyan), a entrada diária – um crachá plastificado – para brincar numa arquibancada custa de 15 a 20 dólares. Para os quatro dias, pode valer 50. Considerando que uma grande parte da população de Mianmar não ganha esse valor como salário mensal, essa brincadeira de fim de ano nas arquibancadas, com direito a som e snack, está reservada aos capitalinos de classe média. Alguns estudantes economizaram seus parcos dólares durante o ano todo para participar do evento.

Um dos sucessos de Inya Road é sua localização ao lado de um lago e de uma área verde. Por isso, foram montados no local mais de 20 estandes, cada um com seu sistema próprio de som e de água. Esta é bombeada do lago e chega em mangueiras tipo Corpo de Bombeiros, com pressão total. À medida que me aproximo da confluência com Inya Road, o som frenético do hip hop aumenta. O ritmo alucinante não deixa ninguém parado. A avenida toda dança e pula! São apenas 10 horas da manhã, mas garrafas de cerveja e de whisky passam de mão em mão. Aqui não é o ambiente controlado e organizado dos estandes perto do hotel. Começo a entender que, em Inya Road, vale tudo!




Quatro dias de festas non stop em Inya Road!


E lá se vão litros e litros de água por segundos!!!

Como Inya Road está em declive, a água de todas as arquibancadas escorre em uma única direção. No final da rua, encontro um riacho: tem até correnteza! As crianças menores aproveitam para tomar banho, como se estivessem dentro de um caudaloso rio. Fico abismado com a quantidade de água que é desperdiçada. São milhares de litros por minuto. Em todo o país, milhões. Talvez bilhões de litros!


A criançada brinca na correnteza do riacho que vem de Inya Road.

Tento fazer rápidos cálculos de toda essa água. Mas sou interrompido por gritos de alegria da criançada que pede para ser fotografada. Todos estão contentes e o importante é celebrar o Ano Novo. Em última instância – pensando com certa condescendência ambiental – esse turbilhão de água vai acabar no mesmo lago de onde saiu. Para um povo que vive reprimido por um duro regime militar, esse feriadão de Thingyan representa uma pausa na busca sofrida de seu ganha-pão cotidiano. Ninguém quer falar de política. Preferem esquecer os duros meses que passaram e deixar que a água lave todas as emoções, trazendo um Feliz Ano 1370!

E, aproveitando, Feliz Dia da Terra amanhã!

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23/04/2008 00:00

Farsa ou maionese?

Recebi essa foto e resolvi colocar no blog como sinal de alerta. A imagem teria sido fotografada por um estrangeiro (no dia 20 de março) e agora percorre o mundo.

Essa foto poderia ser uma das provas da farsa dos chineses no Tibete. Não sei em que cidade a foto foi tirada, mas o triciclos são bem parecidos aos de Lhasa, capital do Tibete. Comparei com uma foto que tirei de um triciclo na mesma cidade e a cor verde, a decoração amarela ao lado e o teto são os mesmos. Também podemos notar que os civis (de pé e no triciclo) tem feições bem semelhantes às dos tibetanos. Os policias, vestidos com seus uniformes típicos, seguram roupas vermelhas e amarelas... coincidentemente, como os mantos dos monges budistas tibetanos! Outra supresa: todos os policias tem suas cabeças totalmente raspadas, outra característica dos monges. A imagem também poderia dar a entender que eles estariam esperando alguma ordem para trocarem de roupa, vestirem-se como monges e criar alguma confusão que, mais tarde, viria a colocar a culpa nos budistas tibetanos.

Será mesmo que um país tão próspero e poderoso como a China, na véspera de realizar suas Olimpíadas, usaria uma tática tão vil e mentirosa? E ainda mais, deixar os policias com os mantos nas mãos, no meio da rua? Talvez eu esteja viajando na maionese e os policias chineses queriam apenas levar mantos novos, como presente, aos monges tibetanos...


E você, o que acha da foto? Foi montada? Incrimina? Alguma outra idéia ou possibilidade?

PS 30/4/08: Nem farsa, nem maionese, mas Hollywood! Graças a Karen Monesi, uma budista tibetana (brasileira) que vive na India, o mistério da foto acima foi desvendado. Como ela mencionou no comentário # 21, a imagem é de um filme rodado no Tibete há uns cinco anos. Como os monges não queriam participar como figurantes no filme, os policiais locais teriam se prontificado a se disfarçar de devotos budistas. Por isso, os militares nas ruas estariam com as roupas de monges em suas mãos. Entretanto, isso não impede o fato que policiais chineses tenham podido usar, em março último, esse mesma estratégia e disfarce. Mas a prova disso não seria essa foto...

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25/04/2008 00:00

Mandalay e as antigas capitais

Mandalay
– Em 1973, tirei um visto para a Birmânia. Na época, só era permitido ficar 7 dias no país, tempo suficiente para chegar na capital Yangon, comprar os bilhetes de trem e partir em direção a Mandalay e a Bagan. Nunca cheguei a utilizar o visto: o roteiro daquela viagem modificou-se completamente e esqueci a Birmânia.

Trinta e cinco anos depois, estou pronto para cumprir o mesmo roteiro. Poderia tomar o vagaroso trem (11 horas de viagem), mas, com o calor aumentando, prefiro um meio de transporte que não era disponível na época: o avião. Chego na segunda cidade do país ainda em pleno Thingyan, o Festival da Água. Mas o que me interessa mesmo é visitar a região, centro de vários reinos durante séculos.

Já tenho meu itinerário definido. Posso visitar as três antigas capitais ao redor de Mandalay em apenas um só dia. Às 7 da manhã, já estou na rua e negocio com um taxista o trajeto. Subo num mini-carro, algo entre um triciclo motorizado asiático e um veículo com quatro rodas. Aliás, em 20 segundos passamos de quatro a três rodas – literalmente. Uma das rodas quebrou! Pronto, já devo me preparar para mais uma longa negociação com algum outro taxista. Mas meu motorista não quer perder o freguês: pede 10 minutos e ele mesmo troca a peça quebrada!

Meia hora depois, chegamos em Sagaing, que foi capital do país duas vezes, em 1315 e em 1760. Hoje o poder religioso substituiu o político e é um dos grandes destinos de peregrinações. Todo monge de Mianmar passa, pelo menos, uma semana em algum dos monastérios que existem ao redor da colina principal. Resolvo subir a escadaria da colina e aproveitei para visitar cada um dos pequenos mosteiros que estava no caminho.


Um dos monastérios da colina de Sagaing estava todo ornado com bandeiras budistas da linha Teravada. As cores são diferentes do que as do budismo tibetano, o verde tendo sido substituído pelo rosa, cor das vestimentas das monjas.

Já era quase meio-dia quando resolvi partir para Inwa, local da segunda capital. O carrinho deixou-me nas margens de um canal do famoso rio Ayeyarwaddy, o principal do país, e atravessei de balsa. Do outro lado, uma charrete me esperava para que eu pudesse dar uma volta pela ilha. Nem pensar em caminhar no sol com o calor que faz.

Fundada em 1364, Inwa foi capital da Birmânia durante quase cinco séculos. Entre plantações, centenas de estupas e monumentos marcam a antiga grandeza do local. Hoje, vale a pena visitar três ou quatro monastérios que continuaram de pé. O mosteiro Me Nu Okkyaung, uma construção de sete andares em tijolo, mas que imita os detalhes das construções em madeira.


Me Nu Okkyaung ainda é utilizado pelos monges.

Por mais que eu beba água, o calor das duas da tarde chega ao ponto de ser insuportável. Tenho minhas dúvidas se o pobre cavalo da carroça conseguirá me levar de volta à balsa, para que eu possa cruzar o canal. Meu relógio aponta 39 graus!

De volta ao carrinho – sim, ele continua funcionando bem, mesmo depois do susto matinal – vamos para Amarapura. Também foi capital do reinado por duas vezes, em 1783 e em 1840. Infelizmente, seu antigo palácio foi desmontado e o material utilizado na construção da fortaleza de Mandalay. Hoje pouco coisa sobrou. A principal marca da grandeza de Amapura é a ponte de madeira U Bein, sobre o lago Thaungthaman, de quase 300 metros de comprimento. Foi montada com teca, uma madeira nobre local, recuperada dos escombros dos palácios de Inwa e Sagaing.

Foi dessa ponte de madeira que compreendi mais uma vez a importância da água para os birmaneses nessa época de festas. O lago de Amarapura é um dos lugares escolhidos para a celebração do Festival da Água e todos os birmaneses fazem questão de entrar, de roupa e tudo, dentro d’água. Alguns até colocam uma mesinha de bar e cadeiras DENTRO do lago para curtir as celebrações! A verdade é que, só de ver a água, eu já senti com bem menos calor. Não é apenas uma coincidência que esse festival aconteça no início da época mais quente do ano!


Todos os foliões entram dentro do lago Thaungthaman para celebrar o Festival da Água. E também se refrescar!


Bar aquático no lago Thaungthaman.

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30/04/2008 00:04

Bagan: 6 horas da manhã

Bagan
– Em 1044, o imperador birmanês Anawrahta deu vida a uma planície árida no centro do país. Transformou o vilarejo de Bagan na capital de seu império, unificou a Birmânia, implantou o budismo Teravada no reino e deu início à construção de centenas de templos.

Hoje, Bagan ainda mostra um pouco da importância desse centro espiritual e cultural. Espalhados por uma área de 42 quilômetros quadrados, quase 3.000 santuários – erguidos entre o século 11 e 13 – conseguiram vencer intempéries e invasões.

Esperei 35 anos para ver esse jardim interminável de estupas. Porém, como os templos estão espalhados pela planície tórrida, eu precisava encontrar um meio de transporte apropriado para ir de um santuário a outro. A pé, estaria limitado a desvendar alguns parcos quilômetros. Ainda mais com o sol forte de verão na cabeça. A solução: uma bicicleta!

Seis horas da manhã, monto no selim duro e começo a pedalar. Se o campo plano facilita, logo me dou conta que as trilhas para chegar aos templos são de areia fofa. Preciso de força dobrada nas pernas. Mas o esforço vale a pena. Logo chego ao templo um pouco mais alto que eu buscava. Retiro os sapatos, entro no santuário e encontro uma escada estreita. Quase às cegas, consigo subir ao segundo andar e chego a uma plataforma. De lá de cima, tenho a vista que eu esperava: estou rodeado por centenas de estupas, como se tivessem sido semeadas pela planície. A luz do amanhecer e o mormaço que anuncia o calor forte do dia dão às minhas imagens um tom mágico, quase que intemporal.







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04/05/2008 20:58

Como é de conhecimento de todos, a região sul de Mianmar, incluindo a capital Yangon, foi devastada pelo ciclone Nargis no último sábado. Cerca de 23.000 pessoas morreram e outras 41.000 estão desaparecidas. O desastre natural soma-se à ineficiência do governo e traz mais um enorme desafio a esse povo tão estóico. As imagens e os relatos deste blog são ANTERIORES ao ciclone.


A magia da Rocha Dourada

Quando abri o guia da Birmânia, ainda no Brasil, e vi a foto de uma rocha dourada, ameaçando despencar do alto da montanha, decidi que não mediria esforços para vê-la com meus próprios olhos e, se possível, tocá-la. A rocha sagrada parece estar segura por apenas um fio de cabelo – literalmente. Na verdade, uma das lendas conta que a rocha converteu-se em um santuário há 2.500 anos (quando Buda ainda estava vivo) e que estaria colocada sobre um de seus fios de cabelo. Outro mito narra que a pedra foi trazida da beira do mar até as montanhas por anjos que a teriam deixado em equilíbrio perfeito. Mais uma vez, um fio do cabelo do Buda teria sido o elemento necessário para que a rocha não caísse!

Depois de cinco horas de estrada rumo ao sul do país, chego em Kinpum. A partir desse vilarejo, nenhum veículo particular pode seguir a estrada em ziguezague – óbvio, exceção feita aos senhores militares que dominam o país. Cogito em fazer a trilha de 10 quilômetros pela montanha, mas sou avisado que o último trecho deve ser realizado a pé, de qualquer jeito. Melhor reservar um pouco de energia para a subida final. Entro em um dos caminhões que fazem o transporte coletivo e lá vamos nós – 36 birmaneses, 3 turistas chinesas e eu – rumo à Kyaikhtiyo (pronuncie Qui-ai-tio e esqueça o resto das letras).

Quarenta e cinco minutos e 825 metros de altitude depois, chegamos ao ponto final do caminhão. Pelo menos, é o que as três chinesas e eu entendemos. Saímos do veículo. O motorista espera alguns minutos e, com todos os birmaneses a bordo, segue caminho acima. Nos sentimos ludibriados, enganados. Tento ainda parar o caminhão, mas o motorista nem tira o pé do acelerador. Eu saio da frente. A explicação: as curvas da última etapa da estrada seriam tão perigosas que o governo decidira que os estrangeiros estariam mais seguros no chão.


Os estrangeiros são obrigados a subir a pé o último trecho até Kyaikhtiyo, mas alguns poucos birmaneses também caminham como parte de sua peregrinação.

Outros quarenta e cinco minutos e mais 280 metros no altímetro e estou no topo da serra. Antes de poder ver a rocha dourada, devo passar por incontáveis lojas que vendem comidas, bebidas e artigos religiosos. São quatro da tarde, o calor já é suportável. Na entrada do santuário, deixo sapato e meias. Mas sinto que o piso ainda está morno. Imagino a temperatura do chão ao meio-dia.

Encontro vários alojamentos para os birmaneses e alguns monastérios reservados para monges. Ninguém sobe e desce à Kyaikhtiyo no mesmo dia. Todos passam pelo menos uma noite aqui em cima. Pa Than, um senhor de 60 anos de idade, vive na capital e veio para ficar uma semana. Ele é um dos doadores de um monastério e explica que o lugar é sagrado. Vários monges vem fazer seus votos aqui na Rocha Dourada.

Chego na praça principal. Todo o piso é coberto por mármore branco, o mais fresco possível. Avisto a pedra e vou em sua direção. Ela parece mesmo querer cair no penhasco. Uma pequena passarela leva até sua base. Apenas os homens podem chegar perto e tocá-la. Quase todos compram um envelope com cinco lâminas douradas. Com cuidado, cada retângulo é grudado na pedra.


Kyaikhtiyo, do alto de seus 1.105 metros de altitude, domina o vale abaixo.


Um monge gruda lâminas de ouro na pedra, num ritual de respeito com a Rocha Dourada.

O sol da tarde perde sua força, mas esquenta as cores. Centenas de pessoas se reúnem ao redor da rocha. Rezam, repetem mantras, queimam incenso e oferecem doações. Monges sentam no solo, em um lugar reservado, e passam a cantar textos sagrados. Todos ouvem com respeito. Os visitantes estão felizes por estar em Kyaikhtiyo. No budismo Teravada, alcançar um lugar santo como este significa acumular grandes méritos.


Estar em Kyaikhtiyo é sinônimo de alegria.

À medida que a luz se dissipa, o número de devotos na praça principal aumenta. Há um ambiente de festa, mesmo se a religiosidade prevalece, sempre misturada ao misticismo e à superstição. Com o pôr do sol, holofotes iluminam a rocha com vigor. A pedra fica ainda mais dourada e contrasta com o céu azul escuro – que em poucos minutos passa a ser negro. Não consigo sair do local. Parece que existe um imã. Para que ir ao hotel? Ou até mesmo jantar? Sento-me no chão e deixo a vida passar. Não é todo dia que posso estar num lugar tão mágico como Kyaikhtiyo.


A Rocha Dourada ao anoitecer. O movimento de fiéis é maior à noite, pois a temperatura amena ajuda.

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10/05/2008 15:21

Ciclone Nargis

O desastre em Mianmar (Birmânia) me deixou tão surpreso e atônito que não consegui mais escrever os posts que planejava. Duas semanas antes do trágico evento eu estava no país.

Durante essa semana, acompanhei os noticiários nacionais e os internacionais – principalmente, a BBC World. Os números de vítimas aumentavam a cada notícia – nos primeiros dias, desconhecia-se a dimensão do impacto do ciclone Nargis. E junto crescia a intransigência da junta militar para que a ajuda externa pudesse chegar ao país.

Com a desculpa que os estrangeiros poderiam influenciar ou mesmo sabotar o referendo de 10 de maio, foram fechadas as portas às organizações humanitárias. A retórica oficial diz que Mianmar aceita doações de qualquer nação. Mas, na prática, os vistos de entrada não são emitidos.

A região do delta do rio Irrawadi (ou Ayeyarwaddy) é de difícil acesso. As estradinhas existentes possuem inúmeras pontes e estas foram destruídas. Apenas os intrincados canais podem servir como vias de comunicação. Isso tudo complica a vida daqueles que conseguiram passar pelo desastre natural. A cada dia que passa, as possibilidades diminuem para que os sobreviventes possam ter comida e água potável.

A junta militar de Mianmar pode ficar na História como uma das mais selvagens de nosso tempo. Se milhares de pessoas morrerem a partir de agora pela falta de apoio e pelo excesso de paranóia, a junta militar poderá ser considerada como a responsável por um segundo desastre.

Existem desgraças que podem trazer uma luz no final do túnel. Esta pode ser uma delas. Dentro de alguns meses, quando os birmaneses se restabelecerem e acordarem, eles vão se lembrar da atitude egoísta do governo. A falta de visão do governo militar de Mianmar provocará, sem nenhuma dúvida, uma onda de rejeição tão grande – no país e no mundo – que o futuro da junta está com seus meses contados.

Nargis deixou mais de um milhão de desabrigados, mas seu impacto poderá ainda perdurar por mais tempo. Que seus violentos ventos consigam ter ainda a força para inspirar os governantes a lutar pela sobrevivência de seu povo e não apenas para se manter no poder.

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Haroldo Castro

Haroldo Castro possui três paixões: contar estórias com fotos e crônicas, estar na natureza e viajar intensamente. Criou o conceito de Viajologia, que reconhece a viagem como uma escola dinâmica. Tem mais de 30 anos de experiência como fotógrafo, jornalista, diretor de documentários e estrategista de comunicação. Morou no Brasil, na França e nos Estados Unidos; trabalha em quatro idiomas e conhece mais de 130 países.

> O estrategista da natureza

 
 
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