19/05/2008 23:22

A Grande Viajante do Norte

Você já deve ter ouvido falar de uma fotógrafa carioca que trocou as praias tropicais pelo gelo do Pólo Norte. O nome dela – Luciana Whitaker – está saindo nesses dias na imprensa pois ela acaba de lançar no Rio e em São Paulo seu livro “11 anos no Alasca” (Ediouro, R$ 49).

O livro é um diário de bordo que acontece nessa última década. Luciana conta o cotidiano de uma vida bem diferente da nossa - e da grande maioria da população do planeta. Por exemplo, durante dois meses de inverno, o sol nem aparece em Barrow, a cidade mais ao norte de nosso continente, lar escolhido por Luciana. Para compensar, durante quase três meses o sol não se põe. Quase toca o horizonte de madrugada de maio a julho, mas volta a subir logo depois. Essas luzes mágicas foram o pano de fundo para que Luciana pudesse registrar os momentos íntimos do povo Iñupiaq.


Saída de um grupo de caçadores de baleia, uma atividade tradicional dos Iñupiat

Como dá para imaginar, tudo começou com uma bela história de paixão. Luciana conheceu Kelly em 1996 e no mês seguinte deixou o trabalho na sucursal carioca da Folha de S. Paulo e foi para a Latitude 71. Como uma das ocupações de Kelly era caçar baleia, Luciana teve a oportunidade de acompanhar e documentar o processo. Ela saiu do Brasil vegetariana, mas em terra de esquimó, onde não dá para plantar alface, ela teve de se adaptar à realidade local.

Um dos temas mais interessantes que ela acompanhou nessa década é o aquecimento global nessa parte sensível do mundo. No ano passado ela publicou uma linda reportagem na EPOCA e contou que, devido às mudanças climáticas, a camada congelada da Terra, o permafrost, está, de fato, esquentando. Como resultado, os Iñupiat, que guardam a carne congelada de baleia dentro de galerias subterrâneas, verdadeiros celeiros de gêlo, estão começando a comprar freezers, porque a natureza não dando conta do calor...


A caça de uma baleia é parte fundamental da cultura Iñupiat. Mas haja estômago para aguentar tanto sangue!!!

Comentários Comentários () > Link da nota

25/05/2008 12:22

Para essa segunda viagem à Asia, seu blog Viajologia está bem diferente do que a primeira em 2007”, comentou uma amiga há poucos dias por email. “A jornada na Mongólia, China e Tibete saiu bem redondinha. Essa sua ao Butão, Nepal e Mianmar foi cheia de atropelos, não foi?” Concordei plenamente.

Na verdade, em várias situações fui literalmente forçado a mudar a sequência do itinerário e dos posts. Mal tinha começado a escrever sobre o Butão e cobri as primeiras eleições do reino: troquei as caminhadas pelas montanhas pelos resultados ao vivo. Cheguei ao Nepal e dei de cara com os protestos tibetanos. O blog passou a ser, temporariamente, internacional. As duas notícias em inglês geraram dezenas de links em sites e blogs pelo mundo afora. Quando chegou a hora de falar sobre Mianmar, confirmei o que esperava: que de lá mesmo – onde Hotmail, Yahoo e Gmail são proibidos – seria impossível postar alguma coisa. Para concluir, quando comecei a publicar as histórias sobre o país, o ciclone Nargis trouxe morte e destruição e silenciou minhas narrativas.

Com tudo isso, já regressei ao Brasil. Mas sinto que devo fazer um último esforço para terminar a viagem virtualmente. O último destino, Ladakh, vale a pena.


Ladakh, o Pequeno Tibete

Estou em Delhi. A temperatura está nos 40 graus. É o calor brutal do verão que começa. Vai continuar por dois ou três meses até se transformar nas chuvas torrenciais das monções. Adoro clima tropical, mas numa cidade poeirenta, engarrafada e caótica, sinto que não vou suportar. Meus olhos, congestionados pelo pó e pela poluição, reclamam e ameaçam uma conjuntivite (a última que peguei foi em 1994!) Dentro do apartamento, o ventilador de teto só faz movimentar ainda mais o ar quente. Mas não há como sair de casa entre as 10 e 16 horas: o sol bate forte. Tenho uma semana pela frente antes de voltar ao Brasil e preciso escapar de Delhi de qualquer maneira!

Minha primeira opção é visitar uma amiga brasileira Karen Moresi, uma budista tibetana que mora em Sarnath, na Índia. Ela trabalha com Tsering Gellek, a filha de um grande mestre tibetano da linha Nyingma, Tarthang Tulku. Mas ela me avisa que a temperatura em Sarnath e na vizinha Varanasi passa dos 50 graus! O bom senso me diz que devo ir para as montanhas. Penso em Rishikesh, na beira do sagrado rio Ganges e ponto de encontro de vários gurus hinduístas. Ameaço ir a Dharamsala, “capital” do governo tibetano em exílio. Sikkim e Darjeeling também entram na equação.

Naquela tarde pesada e sofrida, meu dedo recai finalmente sobre um recanto perdido no mundo, o antigo reino do Ladakh. Meu guia sobre a Índia me avisa que chegar de avião até lá pode ser complicado, por causa do clima, da altitude e dos poucos vôos. Mas não há guia turístico que acompanhe a evolução da Índia. Uma meia dúzia de novas empresas aéreas brotaram nos últimos anos e todo o esquema de vôos domésticos mudou completamente. Na internet, checo horários e disponibilidade. Não há nenhum problema. Tomo a decisão, vou para Leh, capital do Ladakh.

No dia seguinte, às 7:30 horas da manhã, estou sobre a cordilheira do Himalaia. Aterrizo entre nevados, quase que no meio do deserto. O comandante avisa que a temperatura é de 2 graus negativos! Mais um contraste indiano! No chão, o ar é rarefeito. Pudera, estou a 3.500 metros de altitude.

No centro da pequena cidade, olho para cima e vejo o antigo palácio real, construído no século 17, e o monastério Tsemo. As duas construções dominam Leh. Resolvo, devagar, subir até lá.


Do teto de uma casa, tenho a vista do antigo palácio real de Leh e do mosteiro Tsemo, à direita, no alto.


As construções de adobe dão um ar de vilarejo à Leh, capital do Ladakh. Ao fundo, a cordilheira do Himalaia.

Comentários Comentários () > Link da nota

07/06/2008 00:04
Do Himalaia aos Andes, passando pela Amazônia

Porto Maldonado, Peru – Não consegui colocar um outro post sobre o Ladakh, o Pequeno Tibete. Mal troquei os Himalaias pelo Brasil, tive de arrumar minha mala novamente e partir rumo à cordilheira dos Andes. Foi o vídeo que me chamou para essa viagem: estou aqui nessas terras para produzir e apresentar dois documentários para a televisão.

A primeira escala foi Porto Maldonado, uma cidade na Amazônia peruana, próxima ao Brasil e à Bolívia. Já passei dezenas de vezes por Maldonado, porque a região é uma das mais ricas em biodiversidade do mundo. Mas minha visita agora é para conhecer um pouco melhor o que está acontecendo com a Rodovia Interoceânica.

A estrada que ligava Iñapari, na fronteira com Acre, com Porto Maldonado existe há vários anos. Mas era transitável apenas durante alguns meses. Na época das chuvas virava um barro só. Até que os governos brasileiro e peruano resolveram que a estrada existente merecia ser asfaltada. A construtora Odebrecht amarrou um consórcio, ganhou a concorrência e, desde 2006, trabalha na região.

Para qualquer conservacionista, abrir uma rodovia ou asfaltá-la é sinônimo de impacto ambiental na certa. Os efeitos negativos diretos – como mexer com riachos e zonas alagadas – são até fáceis de ser manejados ou controlados. O problema aqui são os impactos indiretos. Com a pavimentação da Interoceânica, levas e levas de migrantes da zona andina descerão para a Amazônia. Isso significa um crescimento da população, procura por mais terras e aumento do garimpo e do desmatamento. Numa região onde planejamento e investimentos em uma economia sustentável não são prioridades, uma nova via de comunicação como a Interoceânica pode representar um grande desastre ambiental.


Uma escavadeira amplia a antiga estrada, a 20 km de Porto Maldonado. O impacto ambiental não se mede em árvores cortadas, mas em número de imigrantes que chegarão à região


Um porco-do-mato ou queixada atravessa um trecho ampliado da Interoceânica. Por quanto tempo a vida selvagem estará a salvo?


Comentários Comentários () > Link da nota

Haroldo Castro

Haroldo Castro possui três paixões: contar estórias com fotos e crônicas, estar na natureza e viajar intensamente. Criou o conceito de Viajologia, que reconhece a viagem como uma escola dinâmica. Tem mais de 30 anos de experiência como fotógrafo, jornalista, diretor de documentários e estrategista de comunicação. Morou no Brasil, na França e nos Estados Unidos; trabalha em quatro idiomas e conhece mais de 130 países.

> O estrategista da natureza

 
 
  14/05/2008 - 13/06/2008 14/04/2008 - 14/05/2008 04/04/2008 - 14/04/2008 25/03/2008 - 04/04/2008 15/03/2008 - 25/03/2008 05/03/2008 - 15/03/2008 14/02/2008 - 24/02/2008 25/01/2008 - 04/02/2008 15/01/2008 - 25/01/2008 05/01/2008 - 15/01/2008 26/12/2007 - 05/01/2008 16/12/2007 - 26/12/2007 06/12/2007 - 16/12/2007 26/11/2007 - 06/12/2007 16/11/2007 - 26/11/2007 06/11/2007 - 16/11/2007 27/10/2007 - 06/11/2007 17/10/2007 - 27/10/2007 07/10/2007 - 17/10/2007 27/09/2007 - 07/10/2007 17/09/2007 - 27/09/2007 07/09/2007 - 17/09/2007 28/08/2007 - 07/09/2007 18/08/2007 - 28/08/2007 08/08/2007 - 18/08/2007 29/07/2007 - 08/08/2007 19/07/2007 - 29/07/2007 09/07/2007 - 19/07/2007 29/06/2007 - 09/07/2007 19/06/2007 - 29/06/2007
 
 

www.haroldocastro.com
www.viajologia.com.br
www.epoca.com.br
blogdoplaneta
penseverde

 
 
         
 
Copyright © 2007 - As mensagens postadas na seção reservada aos comentários são de responsabilidade única e exclusiva de seus autores.